domingo, 23 de abril de 2017

Trabalho acadêmico sobre o livro de Joel


  
Introdução

            Neste artigo iremos abordar o livro do profeta Joel, o segundo livro dos chamados profetas menores, um livro complexo de entendimento, pois, não tem precisão de data em seus escritos, alguns teologos dizem que se trata de um texto pós-exílico, outros trazem como pré-exílio, este último sendo considerado o mais provável.

YAMAKAMI[1] (1999, p.3483, grifo nosso), aborda que:

Mas, apesar de suas profecias terem sido dirigidas especificamente ao reino do sul, Judá, a sua mensagem é universal. Se aceitarmos a data mais antiga, então o seu ministério se deu durante o reinado de Joás (II Crô, 22-24). Assim sendo, é possível que tenha conhecido Elias, quando ainda era menino, e por certo era contemporâneo de Eliseu.

O livro de Joel é dividido em três capítulos com dois aspectos distintos, um nos mostra o juízo do Senhor em Jl 1:1-20; 2:1-17 e o outro faz abordagem apocalíptica em Jl 2:18-32; 3:1-21, faz uma advertência ao povo de Judá sobre a sua infidelidade a Deus e convida o povo ao arrependimento antes do Grande Dia do Senhor. Assim como todo livro profético traz uma mensagem daquilo que irá acontecer, no final sempre tem uma mensagem de restituição.

O seu contexto é muito rico, pois, irá trazer a devastação de uma praga de gafanhotos, sendo uma espécie pior que a outra, conforme escrito em Joel 1:4, “ O que deixou o gafanhoto cortador, comeu-o o gafanhoto migrador; o que deixou o migrador, comeu-o o gafanhoto devorador; o que deixou o devorador, comeu-o o gafanhoto destruidor.” Logo em seguida uma seca terrível, mas, a exortação do Senhor dá a oportunidade de arrependimento e redenção de um  povo que completamente assolado, pode se beneficiar da longaminidade de Deus, como vemos em Joel[2], “ Rasguai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque ele é misericordioso, e compassivo, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e se arrepende do mal.”Iremos abordar o contexto do livro do profeta Joel em cinco aspectos, tais como, Literário; Histórico; Cultural; Geográfico e Teológico.





Literário

         Não encontramos notas históricas sobre o profeta, seu ministério ou família, porém, entende-se que o livro é de autoria do próprio Joel, pelo o que está escrito em Jl 1:1, “ Palavra do Senhor que foi dirigida a Joel, filho de Petuel.” O significado donome de Joel (יוֹאֵל - hebraico.pro) é,O Senhor é Deus[3], ele foi um dos doze profetas chamados menores do Antigo Testamento, é chamado assim por conta dos escritos que possui ser pequeno, compondo-se de 73 versículos. No cânon das Escrituras hebraicas, Joel aparece como segundo livro entre os profetas menores, já Septuaginta o livro aparece sendo o quarto, sendo que na Bíblia hebraica são quatro capítulos e na tradução grega traz três capítulos. A maioria das nossas traduções e disposições, trazem como o segundo profeta menor e com três capítulos.

Vemos uma linguagem literal que nos levam ao entendimento que a praga dos gafanhotos, foi um juízo de Deus, usando a natureza para trazer a devastaçãodas plantações, trazendo fome ao povo de Judá, outros intérpretes irão dizer que é uma linguagem metafórica, nos arremetendo a pensarmos queé na verdade um grande exercíto,invadindo a nação, conforme descrito em Jl 1:6, “ Porque veio um povo contra minha terra, poderoso e inumerável; os seus dentes são dentes de leão e ele tem os queixais de uma leoa.”Argumentos não fortificados pelo fato que no capítulo 2, verso 25, o Senhor diz que trará a restituíção de tudo aquilo que os gafanhotos consumiram.

A embriaguez é o único pecado que conseguimos identificar no livro do profeta, no versículo 5 do capítulo 1, “ Ébrios (quem é viciado em bebida alcoólica, DICIO - dicionário online), despertai-vos e chorai; uivai, todos os que bebeis vinho, por causa do mosto, porque está ele tirado da vossa boca.” Não se sabe o motivo real, mas o povo estava em pecado e precisa se arrepender e se converter ao Senhor, conforme encontramos em Joel 1:14 e 2:12.Um cenário desolador, o país sem alimento, a vide seca, a figueira murcha todas as árvores do campo secaram, onde até os animais sofreram com fome e seca, tudo ficou assolado e destruído. O profeta Joel pede ao povo que façam jejum, chore, lamente e clame a Deus, para que os sacerdotes convoquem a nação para o arrependimento. Com isso trazendo o quebrantamento dos corações e conversão ao Senhor, assim Deus traz o livramento para todo o povo.

 Histórico

            A data do escrito do livro do profeta do Joel tem duas vertentes, prós-exílio e pré-exílio, alguns teologos defendem ter sido escrito após o cativeiro da Babilônia, por algumas expressões feitas por Joel no capítulo 2 verso 19, “ e, respondendo, lhe disse: Eis que vos envio o cereal e o vinho, e o óleo, e deles sereis fartos e vos não entreguerei mais ao opróbrio entre as nações.”Dando a entender a linguagem de que o povo foi restituído, ao qual o Senhor teria livrado das nações inimigas.

Quem defende a tese prós-exílica tenta ilustrar que a praga de gafanhotos é um simbolismo sobre a invasão dos assírios, babilônios, gregos e romanos, se pensarmos nisso quanto aos dois últimos podemos tentar fazer algum tipo de congequitura ou alegoria do texto de Joel 1:4, porém em relação aos dois primeiros se torna completamente inviável, pois, surgeria uma pergunta simples: Para que Deus iria falar através do profeta algo que já aconteceu?

Porém o mais correto a afirmar é que ele tenha vivido no tempo de Joás, rei de Judá em 839 – 800 a.C., ou seja, muito antes do cativeiro, sendo assim é provável que Joel escreveu o livro em 835 – 830 a.C. Uma forte comprovação desta época que encontramos em alguns profetas pré-exilícos como Jeremias e Amós, tratarem praticamente com a mesma linguagemque Joel usa em seu oráculo, sendo estes parecem ser posterior a Joel, como segue abaixo:

Joel 1:15 – Amós 5:18;19

Joel 2:20 – Jeremias 4:6

Quanto a sua veracidade histórica, não há discussões, o profeta é mencionado no dia de Pentencostes, após a descida do Espírito Santo no NT , assim dito por Pedro[4], se referindo a Joel[5]:

            ATOS, cap.2, vers. 16 - 21.

                        Mas o que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel: E acontecerá                                      nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda carne;                                               vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão                                               vossos velhos; até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do                                    meu Espírito naqueles dias, e profetizarão. Mostrarei prodígios em cima no céu e                                         sinais embaixo na terra: sangue, fogo e vapor de fumaça. O sol se converterá em                                              trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o grande e glorioso Dia do Senhor. E                                       acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.



            Um acontecimento da história, trazendo um peso de importância para um profeta que não temos muitas informações quanto a sua origem ou profissão, mas extremamente relevante quanto a sua canonicidade. Outro ponto que podemos dizer que a época que Joel viveu os reinos pareciam que já estavam divididos, pois, em sua pofecia ele menciona apenas Jerusalém – Judá, como descrito em Joel 3:20 “ Judá, porém, será habitada para sempre, e Jerusalém, de geração em geração”.



 Cultural e Geográfico

         A cultura apresentada no livro do profeta Joel mostra que o povo judeu tinham sua cultura tradicional, como agricultores e pecuáristas como podemos encontrar em Jl 1:10-12 e Jl 1:18. Pela linguagem que o profeta apresenta no texto, podemos pensar que Joel era um homem do campo, como descrito no capítulo 1 verso 7, “ Fez de minha vide uma assolação, destroçou a minha figueira, tirou-lhe a casca, que lançou por terra, os seus sarmentos se fizeram brancos.”

            Se não temos certeza, quanto a sua data exata, contexto histórico ou de qual genealogia pertencia o profeta, uma coisa conseguimos ter a certeza, que Joel profetizou em Jerusalém para o povo de Judá, pelos elementos apresentados como Casa do Senhor ( Jl 1: 13-14 ), dizendo como a habitação ou o templo, onde era localizado em Judá.



 Teológico

         Podemos dividir o livro em dois pontos distintos a desolação ( Jl 1:2-2:17 ) e o livramento ( Jl 2:18-3:21 ), o Senhor fala através do profeta algo que por gerações seriam transmitidas, dos versículos 2 até 12 do capítulo 1 do livro de Joel, irá nos retratar o caráter da desolação causada pelas as quatros espécies de gafanhotos, onde as plantações ficaram completamente destruídas, isso nos mostra como Deus se utiliza da natureza para trazer o juízo ao homem. O profeta exorta os sacerdotes a se humilharem diante do Senhor, pois a sua tarefa para com o trabalho no templo ficou totalmente comprometida pela falta dos cereais para oferta de manjares, além de dar instruções para fazer jejuns, convocar o povo para clamarem ao Senhor, conforme descrito em Joel 1:12;13:

Cingi-vos de pano de saco e lamentai, sacerdotes; uivai, ministros do altar; vinde ministros de meu Deus; passai a noite vestidos de panos de saco; porque da casa de vosso Deus foi cortada a oferta de manjares e a libação. Promulgai um santo jejum, convocai uma assembléia solene, congregai os anciãos, todos os moradores desta terra, para a Casa do Senhor, vosso Deus e clamai ao Senhor.



            Em Joel 1:15-20, o profeta irá mostrar a fotografia da devastação, descrevendo ao povo toda a situação que se encontrava a terra de Judá, pela primeira vez a mencionado o Dia do Senhor (Jl 1:15), todo alimento perdido, uma seca terrível onde o sofrimento chega até aos animais, bois inquietos e ovelhas perecendo, pois não tinha mais pasto, queimadas sufocam a paisagem, um verdadeiro caos onde o próprio Joel[6] começa a clamar ao Senhor, “ A ti, ó Senhor,  clamo, porque o fogo consumiu os pastos do deserto, e a chama abrasou toas as árvores do campo. [...] porque os rios se secaram, e o fogo devorou os pastos do deserto.”

            Com o cenário deste jeito, Deus usa o profeta Joel, para transmitir uma desvastação que ainda há de vir, começa uma mensagem escatológica, onde os sacerdotes tocam as trombetas, convocando todos os moradores da terra, para o Dia do Senhor, um exercíto é retratado como nunca antes visto, onde na lhe escapa ( Jl 2:2-11).

            Deus convida ao povo ao arrependimento genuíno a Ele, velhos, crianças de colo e até as que mamavam ainda, os sacerdotes precisariam interceder ao Senhor com orações e com choro, assim se covertendo a Deus com corações contritos, como exortação descrita em Joel 2:12-13:

Ainda assim, agora mesmo, diz o Senhor: Covertei-vos a mim de todo o vosso coração;e isso com jejuns, com choro e com pranto. Rasguai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque ele é misericordioso, e compassivo, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e se arrepende do mal.



            O homem nestas condições poderia sim responder toda aquela situação de devastação e e cerco de um exercíto poderoso com o arrependimento sincero e com isso Deus poderia mudar a sorte do seu povo, conforme encontramos em Jonas 3:10, “ Viu Deus o que fizeram, como se converteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha dito que lhes faria e não o fez”.

            A partir do capítulo 2 versículo 18 começa o relato do livramento de Deus para com o seu povo, toda restituíção daquilo que havia se perdido, demostrando que o Senhor é zeloso em relação ao seu povo, a promessa do livramento imediato e do livramento futuro, aquilo que ainda irá acontecer ainda, confirmando a sua mensagem escatológica. O profeta descreve tal zelo e cuidado de Deus, tudo isso após o arrependimento do povo, e o Senhor demostrando todo seu amor e benevolência retira o inimigo e restiuí do campo, pois Judá era uma região agrícola, assim Deus volta a demonstrar o seu favor para com o seu povo. No oráculo de Joel, aparece a efusão[7] (expansão; demonstração viva dos sentimentos íntimos) do Espírito Santo, o que aconteceu na festa de Pentecostes (Atos 2:16-21) e que ainda irá acontecer, quando Israel reconhecerá Jesus como o seu Messias em sua segunda vinda, como encontramos descrito em Zacarias 12:10, “ E sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém derramarei o espírito da graça e súplicas; olharão para aquele a quem traspassaram; pranteá-lo-ão como quem pranteia por um unigênito e chorarão por ele como se chora amargamente pelo primogênito.”

            Trazendo todo o seu juízo e consumação de Deus, o livro de Joel no seu capítulo 3, mostra tudo aquilo que há de vir acontecer. Em Jl 3:1 nos leva a Mateus 24:31, “ E ele enviará os seus anjos, com grande clangor de trombeta, os quais reunirão os seus escolhidos, dos quatro ventos de uma a outra extremidade.”, e fará julgamento no vale de Josafá, ou vale da Decisão ou Armagedom ( ref. Mateus 25:40;45; Ap 16:14; Ap 19:14). Joel descreve o Dia do Senhor será o dia do reinado do Messias em seu reino milenar sobre a terra.



Conclusão

            Vimos que o livro do profeta Joel não podemos precisar a data exata do seu escrito nem que época ele viveu ou qual é a sua origem no povo de Deus, porém, um livro com uma riqueza de juízo de Deus para com o ser humano, a chance da redenção e do arrependimento, a restituição de tudo que se perdeu e a consumação completa do grande Dia do Senhor. Nos ensina que a salvação sempre precisará vir mediante a invocação do nome do Senhor, que se perseverarmos até o fim seremos salvos e a promessa que o nosso consolador seria enviado para nos convencer de todo o pecado e de todo o juízo. Contém uma mensagem de esperança para os escolhidos do Senhor, mesmo quando um exercíto poderoso virá contra os seus, mas Deus tem a promessa do livramento para o seu povo mesmo que circunstâncias contradizem tal fato, em proteger aqueles que Ele já tem preparado um reino mesmo antes da fundação do mundo.



Referências Bibliográficas



AUDIÑACH, Pablo R. – Introdução hermenêutica ao Antigo Testamento, São Leopoldo,RS: Sinodal, 2015.



FERREIRA, Aurélio B.H. – Mini Aurélio, o dicionário da língua portuguesa. 7 ed. Curitiba, Pr. Positivo, 2008





YAMAKAMI, Lucy – Introdução ao Antigo Testamento, São Paulo, SP: ed. Vida Nova, 1999.





BÍBLIA de estudo Anotada Expandida. SP: Mundo Cristão, 2006.











DICIONÁRIO HEBRAICO <http://www.hebraico.pro.br/q_dicionario.asp>. Acesso em 04 nov. 2016.







1-YAMAKAMI, Lucy – Introdução ao Antigo Testamento, São Paulo: ed. Vida Nova, 1999.
2-JOEL. In: Bíblia de estudo Anotada. Cidade Dutra, SP: Mundo Cristão, 2006. Cap. 2, vers. 13, p. 845.

3 – RYRIE, Charles – comentarista do livro de Joel na Bíblia de estudo Anotada. Cidade Dutra, SP. Mundo Cristão, 2006, p.843.

4 – ATOS. In: Bíblia de estudo Anotada. Cidade Dutra, SP: Mundo Cristão, 2006. Cap. 2. Vers 16,17,18,19,20,21, p. 1051 e 1052.
5 – JOEL. In: Bíblia de estudo Anotada. Cidade Dutra, SP: Mundo Cristão, 2006. Cap. 2. Vers 28,29,30,31,32, p. 845.
6- JOEL. In: Bíblia de estudo Anotada. Cidade Dutra, SP: Mundo Cristão, 2006. Cap. 1. Vers 19;20, p. 844.

7- Ferreira, Aurélio B.H. – Mini Aurélio, o dicionário da língua portuguesa. 7 ed. Curitiba, Pr.Positivo, 2008, p.334.

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